A espera do Darfur


Darfur é um daqueles lugares de inquietude que, volta e meia, interpelam o mundo inteiro. O Darfur são milhões à mercê da assistência internacional ou da desgraça absoluta. Milhões de homens e mulheres, de crianças e de velhos, à espera. Dependentes. Vulneráveis. À espera.

Estive lá. Visitei campos perto de El Geneina, capital do Darfur ocidental: Kindring I e Kindring II. Estive em Kebkabyiah, que recebeu directamente na cidade 40 mil deslocados, caídos assim de repente sobre uma população de 20 mil. Fui a Nyala e a El Fashir, capitais dos Darfur sul e Darfur norte. Visitei outros campos – Kirigou e Koloma – no vizinho Chade oriental, em Goz Beïda, no Ouaddaï, para onde a guerra do Darfur transborda.

Darfur é um imenso quase-deserto, mais deserto a norte do que a sul. Um deserto assim do tamanho da França, quase seis vezes Portugal, onde viverão 6 milhões de pessoas, 40 por cento nómadas. As tribos africanas – os Fur (que dão nome à região), os Massalit e os Zaghawa – são predominantemente agricultores sedentários, fixados nas suas aldeias e vilas. As tribos árabes, divididas por seus grupos e clãs, são sobretudo nómadas, criadores de gado ou de camelos.

Os nómadas, já se sabe, não são bem de parte nenhuma e são de todo o lado. Muitos deles poderiam também dizer-se chadianos ou líbios. E alguns deles de qualquer outro lugar daquela extensão enorme do Sahel, da Eritreia ao Mali. Romperam no conflito do Darfur ecos mal tratados de outras guerras vizinhas do passado bem recente: a guerra Chade/Chade e a guerra Líbia/Chade.

É de imaginar que o convívio entre nómadas e sedentários nunca fosse 100 por cento pacífico. Mas a História actual evoca-o normalmente pacífico. Os nómadas deslocam-se tradicionalmente norte/sul, acompanhando a linha da estação das chuvas, escassos meses de água do céu naquela vastidão desértica. E, além de um convívio entre nómadas e sedentários ditado por razões de comércio, havia também um convívio na terra escassa, por razões agrícolas: o gado e os camelos dos nómadas, que pastavam ciclicamente nas terras agrícolas dos sedentários, fertilizavam-nas também.

A paz ancestral foi perturbada pela grande seca de 1983/84 – uma catástrofe que vitimou um milhão de pessoas até à Etiópia, imagens de televisão que ainda guardamos na memória. Esse violento ataque da desertificação, que, hoje, muitos associam às alterações climáticas, nunca mais permitiu a estabilização do uso da terra. Os pequenos conflitos pela terra escassa foram-se sucedendo. E o governo de Cartum terá, nesses conflitos, tomado o partido dos nómadas contra “africanos”.

Pelo meio, a política envenenara as coisas com a agenda da “supremacia árabe”. Um discurso muito presente naquelas capitais, que Kadhafi incendiou no final da década de 80, armando nas tribos nómadas a sua Legião Árabe. Perdeu no Chade, mas o rasto nunca se apagou.

No fundo de tudo, décadas e décadas de abandono e esquecimento da administração central de Cartum pela província remota do Darfur, um reino antigo integrado no Sudão em 1916, sob domínio anglo-egípcio.

É este caldo que se entorna em 2003: a crise ambiental e a luta pelos recursos escassos da terra, agravadas pelo longo sentimento de exclusão da periferia e por acusações de favoritismo pró-árabe e anti-africano do governo de Cartum, desencadeiam a revolta dos movimentos rebeldes “africanos”.

Cartum piora as coisas. Azeda o caldo entornado. E, fosse por ser verdadeiro o favoritismo da “supremacia árabe” ou tão-só por estar militarmente enfraquecido pela longa guerra civil no sul do Sudão, o Governo incita contra a revolta as milícias árabes, os janjaweed, onde se encontra ainda o rasto da sementeira de Kadhafi, lançando-as contra os “africanos” rebeldes. As atrocidades sucedem-se numa guerra por procuração. E abre-se uma crise de traços terríveis. Diz a ONU, a maior crise humanitária dos nossos dias.

É mais fácil desencadear estas forças terríveis do que controlá-las e vencê-las. Hoje, é difícil saber quando e como a crise terminará.

O cessar-fogo assinado em 2005 não é cumprido, a começar pelo Governo, que continua a bombardear. A força internacional da União Africana tem mandato e meios insuficientes e desacreditou-se, no entretanto. O Governo resiste à presença militar das Nações Unidas e há muitas incertezas ainda quanto à chamada “força híbrida”. O acordo de paz de 2006 sofreu de precipitações e manipulações políticas que fizeram piorar muitas coisas no terreno: a fragmentação dos grupos rebeldes acentuou-se, fenómenos de puro banditismo cresceram, há mortos na força de paz da AMIS, organizações humanitárias são atacadas, prossegue a brutalidade sobre as populações e sobre as mulheres em especial, a circulação por terra é cada vez mais crítica, o sentimento de medo e insegurança é generalizado. Há ódios que foram avivados e vai ser difícil fazer recuar, mesmo depois de as armas se calarem de vez.

Foi este Darfur que eu vi. Extrema dependência, evidente volatilidade, enorme vulnerabilidade. Darfur à espera. Não já do seu Governo, que não cumpre, ou porque não quer, ou porque não pode. À espera de que a comunidade internacional que alimenta milhões lhes traga com efectividade o pão de que mais precisam: paz e segurança. A segurança indispensável a que o processo político possa desenvolver-se com solidez. A segurança indispensável a que o principal possa seguir-se: desenvolvimento.

José Ribeiro e Castro
ex-Presidente do CDS, eurodeputado

Imprensa missionária, 17.Julho.2007

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